Tempero do Mundo
O LEITE DA MOÇA: A VERDADEIRA PAIXÃO DO BRASIL
VALÉRIA VIEIRA

Existem dois ingredientes que o brasileiro não consegue viver sem: alho e leite condensado. Todo prato salgado no Brasil começa com cebola e alho. Já quando o assunto é doce, o leite condensado reina absoluto. O Brasil é o maior consumidor mundial do produto, algo como 300 mil toneladas por ano, traduzido em cerca de R$1 bilhão em negócio. Sem desmerecer outras sobremesas, acredito que o brigadeiro e o pudim de leite são os doces mais queridos do brasileiro. Ambos não existiriam sem o leite condensado. É claro que podem ser feitos usando ingredientes alternativos, mas não é a mesma coisa. Outro dia vi uma receita de brigadeiro usando batata doce – pura tapeação. É melhor ser da turma do tudo ou nada: ou é brigadeiro de verdade ou não como. Nem aquele que “já vem pronto e é só enrolar” não é gostoso como o feito em casa.
São muitas as sobremesas a base de leite condensado: pavês, sorvetes, docinhos, pudins e cocadinhas. Sem falar no uso em drinques, como adoçante nas tapiocas, sorvetes e saladas de fruta. Qual criança nunca furou um buraquinho na tampa e bebeu direto da latinha aquele líquido de inigualável deleite?
Ele foi inventado por um norte-americano chamado Gail Borden que, ao tentar desidratar o leite de vaca, notou que o produto se transformava em leite condensado antes de virar pó. Era o chamado leite evaporado (sem adição de açúcar) muito usado na
Europa, nos Estados Unidos e quase desconhecido por aqui. A descoberta foi patenteada em 1856 e o Sr. Borden ficou milionário quatro anos depois quando começou a Guerra Civil Norte-Americana e tal leite foi usado para alimentar as tropas em guerra.
Na mesma época, um químico alemão que morava na Suíça chamado Henri Nestlé inventou a farinha láctea, outro grande sucesso da alimentação industrial. A Nestlé, então, começou a fabricar o leite condensado depois de uma fusão com a Anglo Swiss em 1878, quando se tornou a maior indústria alimentícia do mundo. Em 1871, o Brasil começou a importar o produto diretamente para o Rio de Janeiro. Em 1890, ele já era encontrado na Bahia e em São Paulo, vendido em farmácias juntamente com a farinha láctea.
Sua grande vantagem é a capacidade de armazenamento, fator importante nas épocas de escassez na produção leiteira. Naquela época, ele era usado somente como bebida sendo reconstituído com água. Foram necessárias décadas para que o ingrediente chegasse às cozinhas brasileiras.
Mas, porque o leite condensado era e é até hoje chamado de leite moça? O leite importado originalmente da Suíça tinha no rótulo uma moça com um balde na cabeça que se chamava La Laitière, ou a vendedora de leite. À medida que o produto foi ganhando o mundo, os fabricantes tentaram encontrar em cada país o equivalente do nome. Na Espanha, foi chamado de La Lechera e no
Brasil permaneceu com o nome inglês, Milkmaid. Como era uma palavra muito difícil de pronunciar, os consumidores o chamavam de “leite da moça” em referência à moça da embalagem. E pegou. Tanto que os fabricantes passaram a vendê-lo como tal.
Mesmo nos tempos da ditadura da magreza, nós não ficamos sem o leite condensado. Existe a versão light (a diferença é muito pequena) que é muito boa e pode ser usada com sucesso em qualquer receita. Não é preciso dizer que é um alimento bem calórico. Para cada 100gramas ele contem 325kcal. Uma latinha tem 395 gramas. É melhor não calcular...
Uma grande vantagem é que ele é exatamente o mesmo no mundo inteiro. Se você estiver fora do Brasil e bater aquela saudade de um brigadeiro, basta fazer a receita de sempre.
Minha grande alegria é a volta do brigadeiro em festa de adulto. Até recentemente, parecia que ele tinha ficado para trás depois que inventaram a tal da trufa. Mil perdões, mas um brigadeiro é muito melhor. Sem falar na torta de limão (puro leite condensado), bem casado, olho-de-sogra, cocadinhas, palha italiana, sorvetão, pavê de chocolate... hummm!












