Diário de Bordo

A MALDIÇÃO DA TUMBA DO FARAÓ

CLAUDIA TONACO


Egito. Acabara de chegar ao Vale dos Reis, pronta para fotografar as tumbas da dinastia Ramsés. Obsessão por fotos – essa é a maldição que acompanha quem tem uma câmera com infinita capacidade de armazenamento.

Entrei na fila que sumia túnel adentro e, sob as areias do Saara, um cartaz me avisou: é proibido fotografar.

Como assim? É impossível entrar numa tumba egípcia e não fotografar, pensei. Mesmo entendendo que o direito do uso daquelas imagens pertencia ao Egito, eu, com uma simples mini-câmera-de-bolso continuava desejando fazer um simples mini-registro-particular. Nada para abrilhantar as páginas de uma National Geographic ou de uma Viagens Gerais.

Pois decidi, ainda na fila que mesmo desfocada, eu sairia dali com uma foto da tumba do faraó. E assim fiz. De tumba em tumba, comecei a colecionar o que chamei de minhas fotos proibidas.

Porém, quando entrei na última morada do Faraó Ramsés 3º, minha percepção mudou. Cercada de tamanho esplendor, queria apenas admirar as tantas belezas. Olhar era muito mais importante. Continuei caminhando e entrei em uma sala decorada do chão até o teto por hieróglifos coloridos. Estávamos ali, os hieróglifos, grossos vidros blindados que protegiam as paredes, dois amigos, companheiros de viagem, eu e a máquina fotográfica.

Por puro encantamento um dos dedos da minha mão direita não se conteve e disparou:
- Click! E do nada apareceu um egípcio feroz!!

Como o guerreiro desenhado no mural ao meu lado, agarrou com força meu pulso, culpado de sustentar uma mão que segurava a prova incontestável: uma imagem borrada de um pequeno detalhe da obra cheia de majestade.

Olhando-me tão profundamente quanto seus olhos pintados de negro, me arrancou da sala, puxando-me pelo braço. Seguindo na direção contrária da horda de turistas que me olhavam, mais aterrorizados do que eu estava, subi por uma rampa-cadafalso e vi o sol no fim do túnel ao mesmo tempo em que sentia minha esperança se esvair. E agora?!?!
Já sentia saudades da minha vida quando o homem cravou novamente aqueles olhos alucinados dentro dos meus e perguntou de onde eu vinha.

- Do Brasil (lá de Minas)...

E talvez ele amasse o Ronaldinho, ou samba, ou a seleção brasileira. O fato é que ele parou, devolveu a câmera e disse para nunca, nunca, nunca, nunca mais fazer isso de novo. Jurei por Ísis, Nefertite e Tutancâmon! É claro que ele ainda estendeu a mão e recebeu um punhado de dezenas de euros dos meus dois amigos, companheiros de viagem que não saíram um minuto do meu lado.
Viagens... acontecem...

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